Hoje, um adolescente pode conversar com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora. E isso acontece, muitas vezes, sem que a família faça ideia de quem está do outro lado da tela.

O problema é que a internet também permite que pessoas mal-intencionadas escondam sua verdadeira identidade, criem vínculos emocionais e conquistem a confiança de um jovem antes mesmo de fazer qualquer pedido suspeito. Esse processo tem nome: aliciamento (ou grooming, no termo usado internacionalmente), e ele é, acima de tudo, silencioso.

Começa com uma conversa aparentemente inocente, um elogio, alguém que "entende" o adolescente, que o escuta sem julgamentos e faz com que ele se sinta especial. Quando a família percebe, aquele desconhecido já ocupa um espaço emocional importante na vida do filho.

É por isso que o maior fator de proteção não é um aplicativo de controle parental. É o vínculo. Um adolescente que se sente ouvido, acolhido e respeitado dentro de casa tem muito mais chances de contar quando algo estranho acontece na internet, antes que a situação avance.

O tamanho do problema, em números

Os dados mais recentes de pesquisas brasileiras e internacionais mostram que esse não é um risco distante ou raro. Ele está presente na rotina digital de uma parcela significativa dos adolescentes brasileiros:

O que os dados revelam
  • Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024 (Cetic.br/NIC.br), 30% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos já tiveram contato online com alguém que não conheciam pessoalmente. Os principais canais foram redes sociais (15%), mensagens instantâneas (14%) e sites de jogos (9%).
  • A SaferNet Brasil recebeu 52.999 novas denúncias de crimes ligados a abuso e exploração sexual infantil na internet em 2024, o equivalente a 64% de todas as notificações recebidas pela organização naquele ano. O Brasil está hoje entre os 5 países que mais denunciam abuso infantil online no mundo.
  • Um estudo divulgado pelo UNICEF Brasil apontou que, em apenas um ano, 1 em cada 5 adolescentes de 12 a 17 anos (19%) foi vítima de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia.
  • Nos Estados Unidos, o NCMEC (Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas) registrou em 2025 um salto de 156% nas denúncias de aliciamento online (online enticement) em relação a 2024, chegando a 1,4 milhão de casos reportados, incluindo o crescimento acelerado da sextorsão financeira contra adolescentes.

Esses números não existem para gerar pânico, mas para mostrar uma coisa com clareza: esse é um risco real, presente e crescente, que atravessa fronteiras e classes sociais. E ele raramente começa da forma que os pais imaginam.

Por que o vínculo protege mais do que qualquer aplicativo

Pessoas que aliciam adolescentes online são, em geral, extremamente pacientes e estratégicas. Elas não pedem nada de imediato. Investem semanas, às vezes meses, construindo confiança: elogiando, validando sentimentos, fingindo compreender o que ninguém mais parece entender. Para um adolescente que se sente invisível ou incompreendido em casa, essa atenção pode parecer, à primeira vista, genuína e reconfortante.

Aplicativos de controle parental, bloqueios de conteúdo e limites de horário têm seu valor, mas não resolvem a raiz do problema: eles não ensinam o adolescente a reconhecer um sinal de alerta, e não criam o tipo de relação em que ele se sinta seguro para contar o que está vivendo. Um jovem que tem medo da reação dos pais tende a esconder o problema justamente no momento em que mais precisa de ajuda.

O que fazer na prática

Converse com naturalidade. Fale sobre os relacionamentos online com a mesma tranquilidade que você conversa sobre os amigos da escola. Pergunte com quem seu filho gosta de conversar, quais jogos joga e quem são as pessoas com quem ele interage.
Ensine uma regra simples. Ninguém que se conhece apenas pela internet deve pedir segredo, fotos, dinheiro ou encontros. Se isso acontecer, a conversa precisa chegar até um adulto de confiança, sem julgamento e sem punição pelo que aconteceu.
Nunca use apenas a proibição. Se o adolescente tem medo da sua reação, ele vai esconder o problema justamente quando mais precisar de ajuda. Proibir sem dialogar apenas empurra o comportamento para longe do seu olhar, não o elimina.
Prepare, não apavore. A internet faz parte da vida dos nossos filhos. O papel dos pais não é criar medo das redes sociais, é preparar o adolescente para reconhecer riscos, fazer escolhas seguras e entender que nem toda conexão merece confiança.
"Você não precisa conhecer todas as redes sociais para proteger seu filho. Mas precisa conhecer o seu filho para que ele escolha contar a você o que acontece dentro delas."

Proteger começa muito antes de desligar o Wi-Fi

Na teoria, isso parece simples. Mas, na prática, a coisa muda de figura, não é? É exatamente por isso que existe a Academia da Família. Um espaço onde você aprende, na prática, como fortalecer o vínculo, exercer sua autoridade com conexão e conduzir seu adolescente pelos desafios do mundo digital, sem transformar a convivência em uma guerra dentro de casa.

Porque proteger um adolescente começa muito antes de desligar o Wi-Fi. Começa construindo uma relação em que ele saiba que pode voltar para você, independentemente do que acontecer.

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A Academia da Família tem estratégias práticas para você exercer sua autoridade com conexão e manter o diálogo aberto com seu adolescente sobre o que ele vive online.

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Referências

Cetic.br / NIC.br (2024). Pesquisa sobre o Uso da Internet por Crianças e Adolescentes no Brasil — TIC Kids Online Brasil 2024.

SaferNet Brasil (2024). Indicadores de denúncias de crimes e violações de direitos humanos na internet.

UNICEF Brasil (2024/2025). Violência sexual facilitada pela tecnologia contra crianças e adolescentes no Brasil.

National Center for Missing & Exploited Children — NCMEC (2025). CyberTipline Data: relatórios de aliciamento online e sextorsão financeira.

Agência Brasil / EBC (2025). Brasil entre os cinco países que mais denunciam abuso infantil online.